Não tenho filosofia. Eu tenho poesia

Traduzindo ansiedade(s)


Meu desespero não diminuiu,
Apenas mudou de direção.

Tanto se fala em ansiedade, mas afinal, o que é ANSIEDADE?
                   
Pelo ponto de vista espiritual: grande vontade
Pelo ponto de vista psicológico: pode gerar transtorno
Pelo ponto de vista popular: nervoso excessivo
Pelo ponto de vista poético: desespero-motivador-excessivamente-transtornado-pela-vontade.


Ânsia
Ganância
De ser
De viver
De acontecer

As pessoas tomam pílulas
Para deixarem de sonhar.
Para deixarem de querer.
Para deixarem de lutar.
Para deixarem de ser.
Roer unhas não lhe trará seu sonho.
Não se alimentar não lhe trará seu sonho.
Sentir dores estomacais não lhe trará seu sonho.
Xingar as pessoas que estão por perto não lhe trará seu sonho.
Porém, sua vontade – e apenas sua vontade – pode ser que trará seu sonho.


Não sou eu que quero demais

As pessoas que querem pouco
Pareço aberração
Assustam-se com a não anulação
Do meu querer, do meu vencer
Do meu perder, do meu desespero
Assustam-se porque escondem-se
De si mesmas sob falsas alegações
Que amanhã será melhor
Amanhã nunca será melhor
Se não se desesperar agora.



Meu desespero te atraiu pra mim.



O cigarro é o termômetro dos ansiosos.
A ansiedade consome a ele e ele a cigarro
Vejo na fumaça pulmonar desejos resguardados.

A vontade é tanta que me consome toda
É tamanha que caibo dentro dela
E é tanto que ela me espanta
Chega a me deixar estática
Imóvel, parada diante do sonho inadiável.
Eu detestava ser ansiosa.
Então descobri que minha ânsia incurável
É parte do ânimo da minha alma.
Tire-me a ânsia que tenho
E mais nada terei. 
Eu te anseio
Sorvendo-te em desejo
Te anseio         
Quanto mais evades de mim
Te anseio
Tanto
Que já não sei separar
Ânsia e desespero
Porque te anseio
Por total inteiro e tão completamente
Abrangente todo em mim a me consumir toda
Abrangente e tão completamente até suprimir
A vontade da ânsia, o medo do receio, o desespero da alma

Normalmente as pessoas me falam “calma”. Imperativo. “Calma, calma, calma”. Eu não quero calma. Eu sou paciente quando acho que devo ser paciente. Minha paciência se esgota fácil demais, como gota no solo ao sol de meio-dia. Não quero calma. Quero tempestades e esbravejações. Eu quero palavras fortes, a não censura dos sentimentos tolos e a não poda das sensações. Quero todos os versos – inclusive os nulos e brancos – todas as vontades todos os sonhos todas as viagens todos todas, eu tenho pressa. De viver. De pulsar. Não quero calma, eu quero agora. Porque não se faz amor em calmarias como não se faz versos sem desesperos.

Lembras-te da última vez em que me viste ansiosa?
Tive medo de te assustar.
É que tudo em mim às vezes é demais
- o pavor ou a loucura, o amor ou a doçura –
E demais não significa que é tanto assim
Não pra mim
Eu gosto de advérbios de intensidade
Eles traduzem as mais requintadas ansiedades.

Lembras daquele desespero? Juntou-se à ânsia
Mudando toda a minha vida.
Me desespero por tudo e qualquer coisa. Basta um olhar diferente para fazer tremer todo o meu interior. Uma palavra basta para os desesperados. Quando quero mesmo uma coisa – que seja daquelas ínfimas como dobrar uma esquina, que seja das máximas como ganhar um teu sorriso – entro em desespero. Ele me move, me faz andar rápido, me faz correr. Sentimento intenso que não cabe em mim, todos à minha volta têm de se desesperar, eu sou esparramadora de desesperos. Mas nada de causar grandes suicídios, uns pequenos talvez, como suicidar aquilo que me atrapalha ou ofusca minha ânsia.
Minha ansiedade em escrever me livra de todas as outras ansiedades por momentos poeticamente fabulosos...
por Elayne Amorim
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