Não tenho filosofia. Eu tenho poesia

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Uma oração





A poesia também é uma oração
Se se escreve com o coração.

Sinto o tempo passar por mim
Eu me deixo perceber.

Sinto que já não caibo mais em mim
É tempo de transformação.

Eu preciso aprender de novo
A escutar meu coração.

É lá que guardadas estão
Cada mágoa minha, cada amor meu
Cada medo meu, cada sonho meu
Toda a minha culpa, todo meu perdão
E cada pessoa, e toda a percepção.

A poesia também é oração
Quando se escreve com o coração.

Sim, o tempo muda e mais uma vez.
Há muito sofrimento, há muita latência,
Há muita miséria
E não é de matéria, não.
Há muita carência, muita lágrima contida,
Há muito espalhafato e pouco amor de fato.
Há muita banalidade da importância
E muita importância daquilo que é banal.

O mundo girando parece que girou de cabeça a baixo.
E é girando que as coisas vão se acertar, como sempre foi.

E eu mais uma vez no meio disso tudo
Não devo me desesperar.
Eu me procuro, tudo está escuro,
Mas foi no escuro que aprendi a caminhar.
Tomo a lua como guia e as estrelas lá do céu
Enquanto escuto os conterrâneos meus a me chamarem
E os protetores meus e os anjos de Deus
E a Senhora do Céu a brilhar como estrela do céu.

E minha poesia também é uma oração
Pois entre intervalos de palavras há silêncios necessários.

É a hora de caminhar de volta para mim
Pois só assim posso ir de encontro aos outros sem me perder
De mim.

Após seus corações serem destruídos




Após seus corações serem destruídos
Tudo o que lhes restava era prosseguir
Mesmo após todos os infortúnios que lhes eram impostos
Tudo o que restava era prosseguir

Como interromper a vida?
Por que carregar a culpa eterna de interromper a vida?
Isso não valeria a pena
O jeito era prosseguir...

Mesmo se arrastando com as asas sangrando ao chão
Mesmo tendo suas peles esfoladas, sua honra roubada,
Sua herança jamais poderia ser retirada
Mesmo que dilacerassem suas almas

O que resta senão prosseguir?
Alguém se lembraria delas?
Como suas histórias seriam contadas
Caso fossem contadas...

Ah, mulheres do passado
Dos passados mais remotos
Sinto sua dor arder em minha pele
Posso até sentir o calor das palavras ou das fogueiras

Mas não sei se suportaria tanta dor!
Ah, mulheres que se calaram durante séculos e séculos e séculos
Que tiveram suas vozes caladas, submissas, alienadas, castigadas
Em minha célula há uma membrana de suas dores eternas

O presente possui uma dívida com o passado que jamais será paga
O presente ainda pretende massacrá-las!
Com o consentimento das mulheres presentes
Mas eu não quero me calar, quero vencer o medo assolador

Qual história nos foi contada?
A mim, nenhuma, fui descobrindo, senão por palavras
Por sentimentos e sensações e vivências antigas
Vosso sangue corre em minhas veias, o sangue das antepassadas

Sofrestes! Mais que alguém suportaria sofrer
Sempre disseram para serem fortes!
Mulheres das lágrimas! Mulheres das orações! Mulheres das curas!
Sempre lhe ensinaram alguma coisa e pouco aprenderam de vós!

Estampado em mim vosso sofrimento e vossa angústia talhada no silêncio
A me cortarem como flechas ao vento cada eco seu!
Ouço vossos gritos, vosso pranto, vossa oração, vosso clamor
Ouço vosso canto, vosso gozo, vossa louvação e vossos gritos

Ouço em cada parte de mim vossos erros e acertos
Ouço principalmente vosso silêncio
E a poesia que em mim habita é oriunda dos tempos que habitam fora do tempo
E todas vós reunidas na fogueira das bruxas, loucas ou santas

Todas vós vivenciaram podridões que poucos ousariam contar
Em nome da absurda moral das sociedades
Pagaram um preço que certamente
Não foi a condenação de Deus

Vós, mulheres do passado, os erros se repetem no presente!
Fogueiras morais, mortais são acesas a todo o tempo
E a dor perpetua-se pelos séculos e séculos e séculos
Uma dor que não é contada, que não se sabe se será contada

Silêncio entre paredes
Gritos entre dentes
Modos civilizados de se comportar – para as mulheres
Abusos, violências, compra e venda, consumo
Produto, muito bem civilizado, obediente, sorridente, bem vestido
Bancada, perdida, usada e feliz! E Feliz! É assim a imagem vendida
Na culpa que nos levará ao inferno, em nome de Deus!
O Deus compassivo e inquisidor que as igrejas vendem
A imagem de um Deus masculino que odeia as mulheres
Para que assim a “sociedade” possa continuar com seus absurdos

Eu sinto o clamor daquelas mulheres atravessarem minha pele
Eu sinto a dor de ser mulher num mundo que parece não ter sido feito para ela
Eu sinto, eu ouço, bem forte em mim, o clamor eterno
Eu sinto... cada mulher em mim

Elayne Amorim

Que tem, que a todos assusta?...

Em algumas últimas aulas de literatura, comentamos sobre o Barroco e sobre o poeta Gregório de Matos. Famoso também por seus poemas satíricos, enquanto preparava aulas e lia vários textos seus, fiquei a pensar no quão atual a temática desenvolvida em vários de seus poemas é, ou está. Dentre as várias críticas, algumas delas eram direcionadas ao governo da Bahia, fato que, inclusive, contribuiu para que o poeta fosse exilado do Brasil e, mesmo retornando anos mais tarde, nunca mais pôde pisar na Bahia novamente. Hoje eu vejo a "sensura" disfarçada em discursos manipuladores ou até mesmo em projetos de lei. Discutir política e denunciar seus desmandos sempre foi perigoso, mas sempre necessário e, acrescento para hoje, urgente. Abaixo, o fragmento de um poema satírico bem conhecido. Atualizando-o para o nível nacional, é perturbador o quão e há quanto tempo o Brasil sofre com a má administração, a exploração e a corrupção. Solução? Só depende dos próprios brasileiros e, claro!, muito investimento em educação. Mas não só não há investimento, como ainda tentam limitá-la ao máximo. Será por quê?
 

Que falta nesta cidade?... Verdade.
Que mais por sua desonra?... Honra.
Falta mais que se lhe ponha?... Vergonha.

O demo a viver se exponha,
Por mais que a fama a exalta,
Numa cidade onde falta
Verdade, honra, vergonha.

Quem a pôs neste socrócio?... Negócio.
Quem causa tal perdição?... Ambição.
E no meio desta loucura?... Usura.

Notável desaventura
De um povo néscio e sandeu,
Que não sabe que perdeu
Negócio, ambição, usura.


[...]


E que justiça a resguarda?... Bastarda.
É grátis distribuída?... Vendida.
Que tem, que a todos assusta?... Injusta.

Valha-nos Deus, o que custa
O que El-Rei nos dá de graça.
Que anda a Justiça na praça
Bastarda, vendida, injusta.
 

[...]

O açúcar já acabou?... Baixou.
E o dinheiro se extinguiu?... Subiu.
Logo já convalesceu?... Morreu.

À Bahia aconteceu
O que a um doente acontece:
Cai na cama, e o mal cresce,
Baixou, subiu, morreu.

A Câmara não acode?... Não pode.
Pois não tem todo o poder?... Não quer.
É que o Governo a convence?... Não vence.

Quem haverá que tal pense,
Que uma câmara tão nobre,
Por ver-se mísera e pobre,
Não pode, não quer, não vence. 


 * socrócio: termo criado pelo poeta para se obter a rima com "negócio", talvez derive do verbo socrestar (furtar/rapinar). Na edição da Academia Brasileira de Letras está registrado "rocrócio", isto é, retrocesso.


Gregório de Mattos e Guerra (1633/1696), o Boca do Inferno, nascido na Bahia, foi o primeiro de nossos satíricos, homem de língua destravada e fácil veia poética. Estudou humanidades em Portugal, tendo feito o curso de leis na Universidade de Coimbra. Na terra mãe foi juiz criminal e de órfãos. Voltou ao Brasil com 47 anos, sob a proteção do arcebispo da Bahia, D. Gaspar Barata. Tantas e tais fez que não só perdeu a proteção do prelado, como ainda foi degredado para Angola. Reabilitado, voltou ao Brasil, indo para Recife, onde conquistou simpatias e viveu com menos turbulência que na Bahia. É o patrono da cadeira n.º 16 da Academia Brasileira de Letras. Além de versos satíricos e humorísticos, escreveu poesias eróticas com a maior incontinência verbal.

 http://www.releituras.com/gmattos