Não tenho filosofia. Eu tenho poesia

A traduzir coleções e pequenos furtos...

Para a coleção ser completa,
Às vezes é preciso cometer alguns crimes.
Eu, bailarina no chão encantado da vida
Entre o encontro do fugaz e o eterno
A bailar
A bailar
No ir e vir
         Do encontro
Desencontro
Colecionando saberes de não saber.

Já colecionei pedrinhas de rio quando era criança. Que raciocínio infantil era aquele em achar que eu poderia ter todas as pedrinhas do rio? Eu gostava de ficar olhando o formato que tinham. As cores, os tons. Desde cedo eu possuía um gosto por belíssimas insignificâncias. Moravam universos naquelas formas duras que só eu conseguia ver.

Gosto de colecionar olhares.
Guardo em mim cada expressão
Fico a admirar por horas um brilho:
Ali existe vida, vida que nunca termina,
Vida que dispensa palavras.

Guardei comigo teu olhar alegre
Como também o sombrio.
O teu olhar poético
Em que dizias metáforas bonitas
Totalmente sem palavras.
Às vezes um galope me furta da realidade
Aí então sou asas no vento anulando pensamentos...
Às vezes u’a melodia me furta em cordas
Então sou toda poesia extravasando sentimentos...

Certa vez furtei versos.
Péssima ladra: na distração de meus furtos
Não percebia a alma sendo roubada.
Depois que acordei já não mais sabia o que era meu
E o que não mais era.
Meu ato ilícito custou-me caro.

Não costumo colecionar objetos, eles ficam velhos e antiquados.
Às vezes, pego umas palavras soltas ao ar,
Acredito nelas, penso nelas, vejo o encanto delas,
Então, não sendo minhas, passam a me possuir.
Entalho-as de alguma forma que não compreendo em meus pensamentos.
É engraçado que elas não ficam velhas, nem passadas.
Depois de tempos... como dias ou alguns meses,
Percebo que elas se desprendem da minha mente,
Debruçam sobre meu peito, apertando-o,
E aí meus olhos procuram em que depositá-las.

Às vezes acho que eu coleciono palavras.

As mesmas sempre são novas e seus sabores variam com o tempo...
As doces, amargam. As amargas, tornam-se especiarias. As ásperas, amadurecem.
Com o tempo, as palavras – as mesmas palavras – mudam de tonalidade e forma
Uma coleção sempre renovada.

Receio que meu maior crime fora não ter cometido crime algum.
Paradoxo desse mundo estranho em que vivo:
É ilícito cometer crime,
Mas, se não há crime,
Não há perdão.
Roubei um pedaço de tua voz
- pequeno, não te inquietes... –
Às vezes, em dias de solidão,
Costumo soltá-la ao vento,
Daqueles que passam mansos
Em ondas, carregando poeira.
            Aí ouço, entre os assobios assombrados dos ventos
            A tua voz, na vibração do meu pensamento
            Escuto teus risos e o som do vento me envolve
            Os braços leves do vento me abraçam e sussurram
            Em meus ouvidos as vozes de toda uma natureza
            Que te traz pra mim, a tua voz tem cheiro de alegria.

Roubar uma flor de jardim alheio dá a ela um aspecto de conquista, porque roubar uma flor de jardim alheio é antes do ato ilícito a conquista que ela – a flor – faz na alma humana. Uma vez conquistado, o sujeito a prende delicadamente firme entre os dedos e a arranca em pequeno ímpeto do chão. Após o desmatamento do jardim alheio, corre-se a levá-la viva, com raízes à mostra e folhas murchamente amedrontadas. Ah... mas a rapidez do ladrão é vital. Chega ao terreno, prepara a terra, aduba a terra, assenta os pés delicados da plantinha na terra, molha a terra... e se olha. Sentindo-se segura, a flor começa a sorrir timidamente a partir do caule ainda meio mole horas depois... Dias depois ela está viçosa e desabrocha... Lindamente. Um na alma do outro, furtados...
por Elayne Amorim
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