Não tenho filosofia. Eu tenho poesia

Retirei um tempo.

Retirei um tempo. Um tempo. Pequeno. Entre o turno da manhã e o da tarde. Almoço. Já almocei sim e agora são aqueles minutos de descanso. Não sei se descanso ou me canso mais ao relaxar o corpo no sofá na sala dos professores enquanto os carros de propapanga política passam na maior altura lá fora. Um após o outro. Há aqueles em que não dá pra identificar qual é a música, fica apenas um TUUMMMM forte ecoando na cabeça. Vibrando no corpo. Mas aí acontece que nesse tempo em que retirei deposito todo meu cansaço, como se fosse possível esgotá-lo todo em todo esse pouco tempo resumido em minutos. Eu estava há muitos dias afastada da poesia, das palavras, mesmo que em todos os dias da semana esteja eu a trabalhar com elas - formas, estruturas, rimas, escolas, concordância, redação, correção, pesquisa... . Preciso respirar. Respirar poesia. Não o sistemático ensino dela como se fosse coisa exata que se pudesse pegar, mas respirá-la como se fosse essência perfumada dos sonhos que andam se perdendo de mim, às vezes, pela rotina, pelo cansaço, pelo sono excessivo, pela repetição massante de que a tendência é piorar. A tendência não é piorar. Apesar do tumulto lá de fora - e vocês não têm ideia do barulho até parece que estou numa metrópole agora - eu insisto. A poesia em sua matéria fluídica penetra cada poro, cada centrímetro do meu sangue, cada ferida desgastada pelo tempo que insiste em correr e eu toda dele nada posso fazer a não ser insistir também em rasgá-lo e provar que - de certa forma - ele não existe. Estou aqui há quase meia hora de descanso. Estou aqui, no meio do impossível, no meio da correria, no meio do barulho infernal que quase não me deixa pensar. Estou aqui, talvez para lembrar a mim mesma o que sou.
por Elayne Amorim
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