Não tenho filosofia. Eu tenho poesia

Poema desgovernado de uma alma feminina

Dia internacional da mulher.
Se fosse fazer um poema... seria um poema infinito. Porque ser mulher é ser bem mais. E nem tanto assim, porque parece que o mundo cobra, o mundo sempre cobra de nós, desafiando a natureza de que somos feitas. Num mundo em que Deus é definido como O Deus – o masculino, em que o homem é O Garanhão da espécie – o varão e já que queres ser como nós, faze bem feito.
Não. O fato é que o ser mulher foi deixado de lado por tanto tempo e fora ela a que alimentou, a que educou, a que curou, a que orou, a que olhou com olhos ternos e cultivou em si uma coisa louca chamada paixão...
Por que – tu deves te perguntar leitor – por que esta mulher está a falar dessas coisas em pleno século XXI? E eu, humildemente, poderia responder-te: é porque ainda hoje olhos atravessados nos observam; alguns nos temem enquanto outros nos sequestram, caladamente, e nos mantêm prisioneiras, como antigamente... Mentira? Queria eu que fosse mentira... mas a mulher resguarda em si um algo misterioso e incompreensível que fascina e ofusca a razão, que embeleza e amedronta.
Acho a mulher um ser fascinante, oblíquo e livre; curioso, determinado e corajoso. Ser mulher é ser bem mais. E nem tanto assim... somos selvagens, simplesmente indomáveis...
Seria bom que a mulher pudesse ser
A mulher.
O ser de curvas provocantes em que o Criador delineou bem mais
Que a costela de um homem.
Seria bom que a mulher pudesse ser moderna
Mas não máquina
Que cumpre todas as tarefas, todos os horários, com todos em casa, na rua,
No trabalho.

Seria bom que a mulher pudesse ser o ser
Inteligente que é.
E assim ter o seu valor reconhecido não por fazer algo como um homem faz,
Mas porque ela escolheu fazer e faz por seu próprio mérito.
Seria bom que a mulher pudesse parar de cobrar
Seu espaço onde
Até bem pouco tempo era negado.

E deixar-se...
E soltar-se...
Porque ser mulher é indefinível,
Difícil de traduzir como qualquer outro ser humano.

Aí penso naquelas violentadas
Seja em sua carne, seja em sua alma.
Naquelas que sofrem por seus filhos
Naquelas que inda não descobriram
O brilho de um carinho de verdade.

Naquelas vendidas e maltratadas
Naquelas que escolheram, estranhamente,
Serem traídas e enganadas.
Porque não basta ser feminista com a dignidade roubada.

Seria bom ver a mulher tal como ela é, tal como a natureza a fez:
Forte, sensível, bruxa, encantadora, santa, louca
Discreta de olhar escandaloso
Perspicaz a caminhar por entre flores
Incansavelmente criativa
Mansa, mas jamais domesticada.

Se um momento dela exige, a fera que é brota do seu interior
No mais, a faceirice de que também é composta torna-se visível.
E todas as mulheres do mundo formam essa alma feminina
Há tantos séculos ferida, castrada, reprimida
E ainda hoje,
Talvez, sutilmente, ainda tentem segurá-la
Iludindo-a ao que lhe é superficial
A alma feminina sempre quer mais, muito mais...

Que ser objeto
Que dá conta de tudo
Que é forte e chora no escuro
Que suplanta um sonho em nome do outro

Se tantas foram as conquistas, o que se perdeu no caminho
E que não deveria ter sido perdido?
Intuição de mulher não erra
Por isso já fora queimada
O que estará a queimá-la viva nos dias de hoje?

Porque a alma feminina quer sempre mais...

É livre para poder ser...
Para poder sonhar...
Tudo se torna mágico ao seu tocar...

Não fosse assim, por que então, anjo demoníaco, tentador
Toda a natureza se curva ao teu caminhar...?
Não fosse assim, por que então, mulher, Deus te criou?
Não fosse assim... todo um mundo ainda não se levantaria contra ti...
Musa severa, mãe esplendorosa, poetiza arrebatadora!

Mulher... é só mais uma palavra perdida no vocabulário,
Só mais um nome... um signo...
Para nomear o que não pode ser nomeado nem limitado.

Mulher... sê apenas o que és!

por Elayne Amorim
Postar um comentário