Não tenho filosofia. Eu tenho poesia

"A noite esclarece o que o dia escondeu"


Sim, sempre. O dia esconde muitas coisas, muitos sentimentos, muitos desejos. Escondeu a canseira do olhar, escondeu a distração de uma lembrança, escondeu o arrependimento momentâneo. A noite, fascinante e bela, nos desperta para aquilo que temos medo de olhar, de ouvir, de relembrar. A quietude dos seres diurnos, dos carros passando na rua, de um som alto no ônibus... a quietude nos provoca, nos intima: e aquela dor? E aquele sonho? E aquela pessoa? A noite revela sombriamente um tempo fora do tempo – um quando em que se passam imagens e sons mudos na forma de slides e vemos o passado e o futuro juntos, projetados no presente. A noite é sinônimo de mistério. Os seres bizarros vivem em nosso imaginário noturno, e eles não são belos sugadores saídos das telas dos cinemas ou dos livros, somos nós mesmos. Nossos medos aumentados, nossos arrependimentos imperdoáveis, nossos sonhos ridículos jogados num canto da consciência. A noite revela o silêncio. E o silêncio revela.  Sem TV. Sem rádio. Um diálogo, talvez, sobre o dia, sobre os acontecimentos do dia. Uma taça de vinho. E lembranças, passadas, futuras. As mãos que dedilham as teclas do computador, hesitantes, são vorazes ao falar do que ninguém sabe. A loucura mora na noite. Algo, como que incontido, domesticado, fica submerso nas máscaras diurnas, porém, à noite, essa coisa toma forma, essa coisa cobra. O que o dia escondeu? Muitas coisas. Muitas. Quem estaria acordado para compartilhar das mesmas perguntas que ninguém faz? Quem, que louco, insano, des-atento estaria adentrando a noite só para pensar um pouco no dia, na vida, em tudo o que se passou e tudo o que não se sabe que está por vir? Senta-te à varanda de tua casa, de teu apartamento, de teu quarto. Sente a brisa passar a mão fria pelo teu rosto, a mão fria da noite. Olha o nada diante de ti, a escuridão que se perde onde teus olhos não alcançam. É lá que estás. É lá que estão. Porque trazes também em teu peito essa coisa de querer, de procurar, de insistir, de deixar enlouquecer de vez, mesmo que tudo pareça caminhar ao contrário de ti. Tens essa coisa presa em teu âmago, porém, te ligas demais aos sons que tentam abafar o silêncio; te ligas demais às imagens que se projetam à mente; te ligas demais àquilo que te leva pra longe de ti. Adentre a noite, deixa-a revelar-te os segredos que trazes. É aterrador, é lindo.
Daqui, uma linda lua crescente se delineia no céu repletamente estrelado e faz calor. Uma bela noite para ser vivida em toda sua escuridão...
 por Elayne Amorim
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