Não tenho filosofia. Eu tenho poesia

Como traduzir sentimentos que se derretem sob o sol de verão?


Os sentimentos se derreteram e se escorreram por dentro
Da alma vazia que não sabia como sentir.

Já não se fazem mais verões como antigamente...
Inundou-me a chuva contínua completamente...
E ao que era água e sal se diluía instantaneamente...

A inspiração que desabrochou fora regada ao extremo
E ao extremo do calor úmido ela flori e confunde
E me confunde
E me revela

Talvez eu tenha feito tudo errado.
Talvez eu tenha me antecipado.
Não eram verdades nem mentiras
Era apenas tudo o que eu sentia.

Os poemas rasgaram-se todos, mas dentro de mim.
Fora pior daquela vez, o calor intenso dos dias
O heavy metal que eu ouvia, o segredo que escondia...
Desfacelei-me em palavras... eu ardia...
O verão implacável que em teu olhar trazias...

A natureza devolve pra mim tudo aquilo que procurei encontrar.
Galhos crescidos balançados aos ventos
Galhos quebrados, doloridos, galhos que foram tão alto
Que nem pude acompanhar.
Galhos que a natureza recuperou. Galhos que a natureza podou.
Vejo em meu tronco reforçado a mesma insanidade,
Intensa e inconseqüente: quedas futuras?
Como a natureza, chovi demais.
Floresceu meu coração,
Porém,
Houve colheitas fugazes, colheitas que eram pra ser pra sempre,
Fugazes.
O pra sempre não existe.
Mas existe a beleza infinita do agora.

Não consigo ser outono. Não consigo ser primavera.
Não existo no equilíbrio, moro onde queima;
Faça calor ou faça frio
Eu pertenço à labareda.
Às vezes, para não queimar aos outros, queimo-me.
Porque não se pode queimar àquilo que se ama tanto...

Câncer de pele?
Tenho mais medo de câncer na alma.
É, aquela célula invisível do mal que se abate em nós, humanos, e se prolifera.
Ela se multiplica rápido, através de sensações entorpecidas e frases feitas.
Em verdades inquestionáveis.
Ela se prolifera e pior: contagia quem está próximo e quem está longe.
E cega. E cala.
Tenho medo do mal disfarçado de bem e senso-comum.
Isso me assombra.
Às vezes acordo e vejo uma mancha em minha pele etérea.
Corro logo ao sol das idéias e à liberdade implacável da minha loucura.
Este mal perspicaz, quase invisível, tão inaudível que acontece em nossos dias...

A minha inspiração nunca me deixou.
Eu me combino com o calor, também sou matéria de sol.
O verde, o azul, o amarelo: intensos lá fora
Enquanto uma força rubra pulsa aqui dentro.

Amor é só uma palavra. Que nomeia algo arrebatador. Algo a que nomeamos amor, mas que chega, seqüestra, transforma, fere e parte. Deixando para trás outra palavra: saudade. E essa queima.
Céu azul. Mas não é qualquer azul, é azul de janeiro, azul de fevereiro... O sol muito perto. O corpo muito quente. Os toques se tornam faiscantes. Beijos se derretem nas bocas aflitas. Verão. Já temos um grau a mais na temperatura do planeta? Os desejos estão pegando fogo! Não há bloqueador contra os  raios  insanos dos sentimentos.
por Elayne Amorim
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