Não tenho filosofia. Eu tenho poesia

Depois da festa

Hoje olhei para o dia apagado.
Como uma pintura velha, embaçada
Era assim que estava.
Depois dos sons frenéticos dos cantos
Dos tambores, dos urros embriagados
Estava tudo apagado.

Um rádio na cozinha, som baixo.
Na sala, a penumbra, uma luz baixa.
Dias sem contato com a poesia
Dias atrás – achei que enlouquecia.

Num baú guardado, algumas lembranças.
Não houve carnaval.
Não houve tristeza.
Não houve agonia.
Não houve ressaca.
Não houve nada.

Hoje, deparei-me com o dia apagado.
Com a alma mutilada em pedaços
Vi-me em cada espaço.
Não me vi mais.
Viajei pelo tempo, terminei nesse lugar.
Olhei, parei, contemplei, fui capaz
Inerte – eu me vi inerte – e fugaz.

Uma chama acesa querendo me queimar inteira
Uma chama acesa querendo me reviver inteira
Uma chama acesa derretendo meu gelo, inteira
Uma chama acesa, minha chama acesa, inteira
Uma chama... fugaz, capaz de me queimar inteira

Quem era, quem fui, quem sou, quem serei...
Tudo é apenas uma coisa só.
Retirei minhas máscaras – inda não era carnaval –
Muitos saíram correndo, eu me machuquei
Que outros se machucaram? Inda não era...

Procuro-me, inerte não posso ficar, não quero...
Cansei de esperar, já passou o carnaval
Já lancei as máscaras fora, tornei-me fera
Oh, não, descansei na calçada com as sandálias nas mãos
Deixei o bloco passar, agora posso prosseguir pelas ruas desertas...

por Elayne Amorim
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