Não tenho filosofia. Eu tenho poesia

Des-ânimo poético

Às vezes dá vontade de abrir os olhos e não ver. Às vezes a tentação do comum, do colorido preto-e-branco, do confortável nos rodeia. Às vezes a poesia é anestesiada pela lucidez. Às vezes as mãos se distanciam da tinta, o coração tem sua voz abafada, os pensamentos quase encurralados... Um desânimo poético se abate. Mas, pensamentos são como cavalos selvagens, o coração é regado a fogo, as mãos apenas obedecem. Fico dias longe de um papel e chego a achar-me normal, pronto, estou curada do vírus poético e minha noite amanheceu num dia comum. Ora, mera ilusão achar que loucura tem cura, que poesia tem fim, que esse modo torto de olhar possa ter conserto.
















Ainda bem que não.

Às vezes tenho momentos de lucidez.
Vou à rua, entro nas lojas, compro coisas
De que não preciso;
Não visito o passado nem o futuro,
Esqueço vozes de pessoas
Não penso, não questiono, não critico,
Sigo, apenas;
Permaneço sem sentir dor diante do que seja;
Abandono a poesia;
Chego a concordar.
A lucidez é confortável,
Entorpece os sentidos
E os sentimentos, tudo ameno.

Isso dura um tempo.

De repente, retorno a mim,
À minha loucura,
Olho para tudo aquilo:
Não me culpo.
O cansaço dos dias
A correria da vida
As pessoas e seus prismas
O fato de nada fazer sentido
A maré alta que às vezes sobe até a garganta...
Tentam me sufocar,
Tentam me mostrar que é mais fácil ser lúcido
Ser normal, tudo igual, pra quê? pra quê?
Se esforçar? Pra quê olhar? Pra quê.

Isso dura um tempo.

A deformidade de meus olhos nus
Mostram-me um mundo que só eu vejo
Nesse momento sei que posso sair sem medo
Vou olhar, vou sentir, vou doer
Do cotidiano rotineiro retirar segredos
Fazer aquelas coisas que ninguém faz
Por que são ilícitas – observar a tarde no campo,
Voar um pouco, percorrer por abismos,
Sonhar enquanto mundos se desmoronam,
Acreditar num amor que fora perdido –
O proibido... tantas coisas...
De repente só vejo palavras caindo
E ir-realidades povoando meus sentidos.

Isso dura.

Quando a insanidade retorna
A alma se recobre do manto de sua noite,
Sou noiva de um ser assombrado e divino,
Não vejo mais pedras, nem relvas, nem bichos
Um fogo me atravessa e meu desespero nítido
Me faz borbulhar em chamas sangrentas, eu sou isso
Um borrão de tinteiro derramado
O lobo que devora e deixa gritos
Inofensivo que desaba sobre si lágrimas e sorrisos
Já estou eu de novo a centrifugar retos e oblíquos
O meu certo tenho tido por errado
Meu caminhar incerto confunde os demais
Eu não paro – apenas olho e prossigo
Loucura, pra mim é ter todos os dias por iguais
É aquiescer e esquecer o que realmente sou
Às vezes finjo, no momento de lucidez...
A minha clareza reside na lua
Sua luz vasculha a sombra
E a sombra revela o que os olhos normais
- e cobertos – não podem ver.

Isso dura.

por Elayne Amorim
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