Não tenho filosofia. Eu tenho poesia

A você o perdão negado


Eu sei que eles não perdoam. A sua felicidade. Eles não perdoam, porque você cai, você se machuca, você se levanta e as marcas neste seu rosto, antes tão ameno, as marcas... Elas não assustam você, você nunca teve medo dos monstros. Você já matou alguns... Você já até mesmo desejou enxergar lobisomens raivosos no escuro, não era nada... Eles não existiam. Eu sei que eles não perdoam, eles nunca vão perdoar você, porque você sabe amar mais. Porque é feito de homem e bicho. Porque corre em suas veias teor de romantismo capaz de inundar a dor com estranhas belezas. Porque você é fogo e vai queimar, pouco a pouco, tudo isso, vai cauterizar suas feridas, você não tem medo de sentir medo, de vencer o medo. Eles nunca vão perdoar você. A sua loucura latente. Quando a poesia abandona suas palavras, seu silêncio fala. Quando o vazio se apodera de você, é preenchido com sonhos antigos, os novos sonhos antigos. Não tem medo da noite, porque é nas noites que os lobos habitam e é nas noites que os monstros tentam assombrar, é nas noites que o silêncio cansado do dia revela uma poesia nova. Revela almas. Revela que eles – eles jamais perdoarão a sua insanidade, de achar que tudo pode ser diferente, que tudo deve ser diferente, que tudo... esse tudo tão tudo completamente mudado revela a você sua própria natureza. Para eles, era melhor que inexistisse. Porém, é na inexistência que você se revela. Apenas o sim. Apenas o olhar molhado. Apenas a poesia. Apenas ser o que é. Eles nunca vão perdoar esse seu jeito. Esse seu jeito que ninguém entende, causa inveja, causa confusão. Eles têm medo das noites deles, você não, você abraça a sua noite com o calor do seu dia.
(Elayne Amorim)
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