Não tenho filosofia. Eu tenho poesia

CATIVEIRO



Tu me cativaste e criei um cativeiro pra ti, cativeiro esse em que portas e janelas estão destrancados, ora, podes ir o momento em que desejares, és livre. Sinto mesmo é a liberdade arrancada de mim, pois – me cativaste – e teu cativeiro é daqueles que não deixa muitas opções. Trago-te até mim, apreendo teus pertences, teus versos, tuas canções e apreendo até objetos e te acorrento com olhares, porém, depois, eu sei, tu te vais, és livre, afinal. E deixas em mim momentos que me lembram cheiros, momentos que me lembram suspiros, momentos que me lembram olhos negros, profundos e cheios de mistérios inalcançáveis. Ah, eu me achando dona de mim e de ti provocando-te com ameaçadoras frases, mas sou daqueles sequestradores que têm medo de sua vítima, na verdade, um seqüestrador que se apaixona por ela – a vítima – e a vítima, valendo-se da oportunidade de fuga, seduz e seduz ainda mais o sequestrador. Faz com que o criminoso pague por cada ameaça, por cada corrente que botara em sua vítima, por cada segundo que roubara de sua liberdade. Quanto mais tempo naquele quarto desarrumado, sem comida decente, água escassa, quanto mais tempo maior o desespero do sequestrador que quer fazer agrados à sua vítima, que deseja ardentemente que ela recuse sua liberdade em nome de algum sentimento que ele – seqüestrador – acha poder haver causado em sua prezada vítima. Sem resgates, a não ser o meu próprio querendo ser resgatada por ti, ao raiar de um novo dia, ao me despertar, olho-te, a dormir, a gemer baixo e te cubro para que possas te aquecer e, assim, quem sabe – pensa o seqüestrador, penso eu – quem sabe, a vítima deseje ficar por livre vontade onde antes era sua maléfica prisão. Mas, neste mesmo raiar de dia, tu te despertas e me ilude com um silencioso sorriso, eu, criminosa indefesa, caio nas profundezas do teu olhar negro e me perco. Escuto bem baixo, depois de um beijo, preciso ir e eu digo não e tu respondes sim, preciso... E continuo deitada vendo-te arrumar as coisas e te arrumar, a catar coisas, enquanto que meus brios de raptora ficam pisoteados pelo chão desarrumado, nada posso fazer, já havia jogado fora as correntes, as armas, as palavras ameaçadoras. Tu ainda me olhas e me sorri – estranhamente me sorri – te lanças sobre mim acabando de vez com qualquer defesa minha, qualquer coisa que pudesse haver de agressiva, qualquer vestígio de maldade. Não resta nada, mais nada, a não ser uma mulher completamente despida das intenções terceiras, das más segundas intenções, só restando a primeira... Uma mulher-menina, brincando de polícia e ladrão e terminando vítima da sua própria incursão, terminando vítima, prisioneira, sequestrada, completamente amarrada enquanto que ele, livre, sai pela porta, ganhando o mundo, fechando-se em seu rosto feminino um portão de grades-ferro, trancafiada num estranho sentimento que acaba de pôr-lhe grilhões sedutores e desconhecidos. 
por Elayne Amorim
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