Não tenho filosofia. Eu tenho poesia

O Grito! que grita em mim...


“devemos pintar pessoas que vivem, respiram, sentem, sofrem e amam”.
 Hoje me peguei olhando para essa famosa imagem expressionista do pintor Edvard Munch. Chama-se "O Grito". Cores, tonalidades, desespero, deformidade... a imagem desencadeou em mim centenas de outras imagens, centenas de pensamentos, emoções... Às vezes a alma está assim, incompreensível, deformada pelas pancadas da vida, relutante, buscando um estranho conforto. O grito, por mais intenso que seja, nem sempre – ou quase nunca – é ouvido. Acrescento às palavras de Munch, devemos escrever pessoas que vivem, respiram, sentem, sofrem e amam, poetizá-las, elas existem e, muitas vezes caladas exteriormente, por dentro gritam, berram, solitariamente em seus medos, forçadas a se calarem por tantos motivos bestas que a sociedade criou e nós, muita das vezes, acatamos. Aí vai O Grito! que grita em mim...

Ah, eu sou qualquer coisa como internas sinfonias nervosas de silêncios externos
Absorvo tua dor que é a minha dor
Absorvo tua essência que é minha essência
Absorvo teu verso que falou em mim
O que eu quero está em ti
Teu calor, encurtar tua distância, tão longe, tão longe
Não, não existe nada mais que eu possa fazer
O desespero voltou – ele nunca se fora, calmaria falsa –
Prenúncios de tempestades toscas
E mais uma mudança, mais uma vez tudo de novo
Ao contrário de sempre, no pra sempre acabado e arrastado feito correntes

Ouça meu grito de pavor!
Esqueceras-me? Então onde estás que não te sinto, não te ouço
Apenas meus pés congelados nesta realidade invernal
Neva e afogo-me em dinâmicas lembranças – resgata-me!
Já absorvi tua dor, tua essência, teu verso
Estás em profundezas de mim e tão longe é tão frio
É tanto silêncio quando não ouço tua voz
É tanta sanidade longe de teus olhos
Como posso sobreviver assim na impossibilidade de ter a ti
E estás aqui tão dentro de mim, ou resgata-me ou afoga-me de vez
Livra-me das sombras que criei depois que descobri que havia abismos em mim
Tudo o que desejo está em ti – resgata-me!

Resgata-me... como se fosse coisa roubada, resgata-me como se fosse plágio, resgata-me do grito que há em mim
Já me afoguei em lágrimas demais hoje, esse grito maldito me arranha por dentro
Se me pudessem ver ficariam horrorizados, todos se afastariam de mim
Fotografia deformada como nenhum expressionista conseguiria conceber
Estou sangrando pela casa vazia, as imagens descem dos céus infernais
- o inferno é gelado –
E me acusam, e me cobram, e me debocham, e riem com suas bocas medonhas e peçonhentas
Ouça meu grito de pavor – que ninguém vê – ouça meu grito de pavor – que ninguém compreende
Ouça! Ouça! Ouça! Leia em mim o meu grito! Resgata-me! Meus ouvidos sangram
E ninguém me ouve, minha alma se retorce e ninguém sente, em vermelhos densos em laranjas de fogo gelado
Eu me contorço dentro de mim – por que não escutas? Se estás em mim, não podes me ouvir?
Eu sangro e aperto meu rosto deformado manchado em sal terra pavor e loucura
Onde estás além de aqui dentro do meu íntimo que grita e não podes me ouvir?
Mais uma vez na solidão das multidões cegas a me esbarrarem sem me notarem
Nem que notassem, só tu tens a chave, a palavra-enigma para decifrar-me e calar-me
Só tu, mas não sei onde estás além de aqui dentro de mim que grita que grita que grita
No mais profundo silêncio da poesia
Compreenderás? Me ouvirás? Ou me deixarás
Morrer derretendo por dentro me dissolvendo dentro do meu próprio grito intenso...?
por Elayne Amorim
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