Não tenho filosofia. Eu tenho poesia

CONFRATERNIZANDO O SABER




Foi legal demais ver os alunos interagindo. Maduros, a maioria, sabendo o que querem ali, buscando uma perspectiva para seus futuros. A aula era ‘dissertação’. Dissertação em dois bimestres na correria das aulas que é o ensino noturno. A boa vontade deles é o que torna tudo diferente. Pedidos de que eu leve temas, que peça a redação, que veja como vão se sair. Cansados de mais uma sexta-feira de trabalho, ali, reunidos, eufóricos por uma busca. E, entre um horário e outro, um exercício e outro... ‘professora, podemos comer o bolo que a Fulana trouxe?’ Achei engraçado. ‘No meio da aula, gente?’ ‘Não vai dar tempo depois...’ Não me lembro do que respondi, achei graça de novo. E nos mais seguintes minutos a confeiteira do bolo repartia pedaços de dar água na boca - chocolate, recheio – a todos. Eu assistindo à cena fiquei com os pensamentos embolados e ríamos, eles riam, eu dizia para que não esquecessem o exercício – o exercício de redação... – Mas ríamos. Parecia – e era – uma confraternização. Um aluno se lembrou do refrigerante, que só faltava o refrigerante. E lanchavam e seguravam lápis e liam suas folhas e, naquele movimento todo, minha alma cansada se alentou. Acalmou. Sexta-feira à noite, depois de uma semana inteira de trabalho, o corpo dói. A alma, às vezes, também dói, porque o mais cansativo do que faço recuso-me a falar neste texto. Este texto é sobre dádiva. É sobre confraternizar o saber.
Fugir um pouco do comum e se deixar estar ali. Adocicados, a aula terminou com a correção do exercício em que todos participaram, cada qual a sua maneira. Ninguém ficou alheio.
Eu não sei se cada um ali porá, num futuro, tudo aquilo em prática. Se fará um vestibular, Enem, ou concurso que pediria um texto dissertativo, embora alguns manifestaram esses desejos. ‘Eu quero terminar meus estudos e quero fazer uma faculdade’, uma aluna me disse noutra aula. Eu não sei, aliás, muita coisa. Mas tento plantar uma esperança, tento compartilhar o pouco que sei. Tento motivá-los de alguma forma. E eles retribuem com cobranças saudáveis e perguntas. Isso é tudo para motivar o professor, pois não há alegria maior na profissão que o interesse deles e ver quando progridem; quando, o que consideravam quase impossível, é compreendido. Quebrar barreiras.
São dessas coisas que quase ninguém entende. Que o sistema não entende, não quantifica. E, por não quantificar, não sabem o que realmente acontece numa sala de aula. E, infelizmente, ouvimos coisas do tipo ‘que pena, por causa do noturno ou EJA o colégio nunca atinge as metas’. E isso dói. Porque quem criou esse sistema de metas e números não vê o que eu vejo; não vê o que o professor vê; esquece-se de que gente é gente, não é coisa.
Eu saí muito feliz da aula. Acho que começaram a aprender ‘argumentação e estrutura dissertativa’ de uma forma leve, descontraída. Atipicamente doce. Entre sorrisos. Sem aquela coisa que comumente ouvimos dos alunos ‘que coisa chata; que coisa difícil; mais texto, professora?’ Eu reconheço que o tempo do EJA é curto demais e, é claro, o conteúdo é enxuto e por isso fica comprometido; mas acredito que muitos sairão dali diferentes de quando entraram. Eu acredito que, se eles acreditarem em si mesmos, conseguirão o que querem.
Nossa, eu levaria muitos e muitos mais parágrafos falando deles. Porque penso se teria esse mesmo ânimo de estudar depois de um dia inteiro de trabalho. Porque buscam um não-sei-quê que circunda o conhecimento e o humano. Dá gosto. Nessas horas, vale a pena, aí percebemos que vale a pena e torço para que isso não acabe, não desmorone sob as colunas de números e os sem-número de teorias de quem não vivencia a realidade da sala de aula. Eu torço por meus alunos, que encontrem o que procuram.
O fato é que hoje eu terminei minha semana de trabalho muito feliz.
por Elayne Amorim
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