Não tenho filosofia. Eu tenho poesia

Transformar-se


Uma das coisas mais bonitas da vida é isto: transformar-se. Toda a natureza se transforma, por que temos tanto medo de nos modificar? Não queremos envelhecer, lutamos contra a ação do tempo em nosso corpo e, no entanto, não lutamos contra a ação do tempo em nossos sentimentos. Por mais que a vida bata em nós, ao invés de nos tornarmos maleáveis, flexíveis, sujeitos a mudanças, muitas vezes fazemos o reverso, nos tornamos mais duros, mais mesquinhos, mais casmurros...
     E a transformação é tão bela... Fôssemos mais perspicazes, perceberíamos a natureza... em seu eterno viver-morrer-viver cotidiano, folhas que caem, que brotam, queimadas que destroem e do solo ferido, através das chuvas, a vida brota de novo, como num verdadeiro milagre a olhos vistos.
     Mas percebemos? Não, não percebemos. Temos que lutar contra o tempo, não temos tempo de olhar...
     O que vemos quando nos olhamos no espelho? Quando entramos em nosso ambiente de trabalho? Quando chegamos em casa cansados? O que temos visto?
     A vida quer nos ensinar e ela insiste... a natureza insiste... não somos coisas estáticas a empoeirar sobre uma mesa fria, somos seres vivos, pulsantes, em constantes mudanças, queiramos ou não. Se permitíssemos que o sofrimento nos lapidasse veríamos luz em plena escuridão, sentiríamos felicidades todos os dias apesar dos espinhos entranhados em nossa pele. Olhássemos para a natureza... deixássemos ela nos falar em nossos olhos, em nossos ouvidos, em nossos sentidos, em nossa alma natural...
     Ah, subjuntivos incertos que nos convidam a uma certeza única: viver é maravilhoso; é maravilhoso poder sentir, poder cair e levantar, poder deixar a vida reviver todos os dias após as mortes cotidianas que nos ferem. A ação do tempo sobre nós é como sua própria ação sobre a natureza: renovação, nunca envelhecimento; evolução, nunca retrocesso; melhora, nunca destruição.
     Não conseguimos perceber porque estamos atrasados em nossos egoísmos; e as coisas são como elas são... somos o que somos e aceitação não significa estagnação, mas transformar aquilo que tem de ser transformado, deixarmos ser transformados pela natureza...
     A natureza, tanto se fala nela e tão pouco se vive a ela.
     Parece texto de autoajuda – questiono-me - porém, a vivência nos ajuda a perceber tudo isso. A vivência, os erros, a natureza nos mostra verdades, então, se for autoajuda, que seja, que eu possa-me autoajudar, pois o primeiro passo tem de ser meu, então que eu me autoajude, que a natureza me ajude... Essa natureza que vejo com meus próprios olhos a reviver depois das devastadoras queimadas, esses animais que me sussurram palavras mudas aos meus ouvidos, essas mortes que em mim ocorreram e ocorrem e, de repente percebo, somos feitos de vida-morte-vida-morte-vida... ciclos... transformações...
     O mais bonito é perceber que você pode se permitir ou não, que se você muda o foco, a realidade se mostra de outro jeito, que a interpretação é mesmo subjetiva, que o real – o agora – é pleno de tudo e que perdemos mesmo tempo é tentando combatê-lo ao invés de deixar que ele flua como sempre fluiu, como um rio, que brota da cabeceira da eternidade e flui para a própria eternidade. Somos eternos em nossos hojes. Eternamente em transformação. É tão bom ser o mesmo e saber que não somos os mesmos, que somos diferentes de ontem como seremos diferentes amanhã. Não o mesmo do mesmo, mas o mesmo do incomum, como a natureza, sempre a mesma e, no entanto, em constante transformação.
por Elayne Amorim
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