Não tenho filosofia. Eu tenho poesia

A vida segue.



A vida segue.
Olha, há lembranças fortes; há expectativas quebradas; há o que ficou – embora não exista mais – e ainda dói; há muito o que não dá para compreender; mas a vida segue.
Ainda bem que a vida segue. Ainda bem que ela insiste em pulsar dentro do peito, nos fazer levantar todas as manhãs e haver o que fazer, por quem fazer, mesmo sem o aparente por quê.
Tem sentimentos que nos enrijecem, ao passo que deveriam nos amolecer mais. Eles ficam ali, guardados como aquelas poeiras que grudam no fundo do baú. Você precisa retirar tudo, tudo mesmo, sem medo de remexer em tanta coisa velha, para poder limpar cada canto, mesmo que aquilo irrite, lhe cause alergias terríveis; mesmo que você tenha que ficar uma noite inteira revirando.
A gente limpa a casa, arruma as gavetas, doa roupas, e livros que não serão mais lidos. Precisamos limpar os compartimentos das nossas lembranças mais profundas, principalmente aquelas que nos causam dor e nos deixam traumas. Aqueles compartimentos abandonados, que parecem lacrados, mas que estão ali estorvando uma expectativa nova, uma experiência forte, um sentimento bom.
Porque a vida segue. E não devemos lamentar. Há tempo para tudo – inclusive até para lamentar – mas esse tempo já passou.
É preciso olhar para aquelas lembranças empoeiradas e, já que não há como jogar certas coisas fora, limpá-las. Perdoar; perdoar-se. Alterar a posição delas como se organizam livros de tempos em tempos: qual vale a pena ficar na frente; qual vale a pena ser relido várias e várias vezes; qual deve ficar mais oculto, porque não foi lá aquela leitura tão boa.
É necessário. Nós somos criaturas repletas de sentimentos e não devemos ter medo deles: devemos saber lidar com eles. Aprender e reaprender a organizá-los.
Não deixar que a vida siga, mas seguir com a vida. Respirar o momento novo de cada manhã, selecionar o que é prioridade; a oportunidade é vizinha da distração e que estejamos distraídos apenas para sentir uma coisa nova – como o pulsar forte de uma nova paixão, o frio no estômago no primeiro dia de um novo trabalho, um olhar amante para aquela pessoa que está ali o tempo todo do seu lado... – ah! que estejamos distraídos com a renovação e não com aqueles velhos sentimentos e lembranças que são prisioneiros de um passado que já não tem mais força de alterar a vida que segue e que nos chama para viver!

Elayne Amorim
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