Não tenho filosofia. Eu tenho poesia

Toca meu coração



Toca meu coração, mas toca com cuidado. Como o sol tocando a pele verde da mata ao alvorecer. A mata sabe, ele será implacável ao meio-dia, mas seu toque suave pela manhã a desperta para um novo dia.
Toca meu coração, mas toca sem pressa. Porque troquei meu desespero de esperas pela trajetória de quem acredita em momentos inesquecíveis e não em finais felizes.
Toca meu coração, mas toca com a alma. Não tenhas medo de te despir pra mim, porque entendo de nudez e essa máscara necessária do cotidiano já retirei também a muitos que não sabem ler a latência de um sentimento. Sei respeitar as latências.
Toca meu coração, mas toca com poesia. Romance pra mim é para se ler embaixo de uma sombra. A poesia cabe nos momentos, nos detalhes, nos silêncios, nos intervalos das vírgulas e nessa demora em me responder. Nessa demora de acontecer o que está acontecendo e não sabemos se virá.

Toca. Como já tocaste com as palavras. Encosta teu coração ao meu e enfartemos juntos. Já sangrei. Já alinhavei meu coração com linhas de medo e elas foram absorvidas pelo fogo que me reina e aplaca: sou da paixão. Eu sou da lua cheia e posso caminhar sozinha, me comunicar com o vento e as águas.
Toca o meu coração. Mas meu coração é de carne e seu sentimento é puro. Desconfio dos seres humanos, mas humana vim desta vez e estou a aprender. Não sou porto seguro, mas eu não deixaria outro coração ao relento das desilusões nem abandonado às falsidades que nos ensinaram que eram corretas.

Podes tocá-lo. Eu não entrego meu coração a ninguém. Meu coração é só meu. Somente nele cabem as mágoas que precisam ser curadas; é dele todo o fogo vermelho que o faz pulsar; é dele a vontade maior. É ele quem me leva às viagens mais fantásticas. É nele que se encontram os sentimentos mais puros. É dele a responsabilidade de guardar os segredos. Como poderia dá-lo a alguém? Como eu poderia amar sem um coração?

Toca, mas eu peço que o toques com franqueza, despido de certezas, sem o pudor da falsa moralidade. Toca, sabendo que ele é reflexo de um Deus Criador que depositou nele a mesma partícula do sol brilhante. Toca, mas não o maltrates. Toca, podes até ir embora depois, mas deixa a poesia de um momento pra eu colecionar.

Toca meu coração bem de perto, porque ele já se derreteu todo pela distância do espaço e do tempo. Toca, mas saibas que jamais o levarás. Poderás levar a lembrança de um momento. Poderás ficar, também, se não tiveres medo de fogo cardíaco.
Postar um comentário