Não tenho filosofia. Eu tenho poesia

Traduzindo uivos

Porque metade é gente, metade é fera.
Escondi de ti minha face e
talvez, dentro de meus olhos vistes
uma fera.
Eu sou isso aí que não vês, farejo
persigo, insisto, e sei a hora de recuar.
Percorro por todos os caminhos, mas o lobo
ele sabe bem aonde quer chegar.
Jamais dilaceraria o teu coração
- embora isso metade de mim jamais possa prometer -
porém, sou leal inclusive nas horas do silêncio.
Fui caçado na floresta das ilusões
Quiseram-me arrancar a poesia
Privarem-me da liberdade que ardia
Tentativas.
Não me acertaram em cheio
Os tiros vieram de raspão
O lobo ferido, curado, voltou a correr outra vez.
Uivo som melancólico lamento
Nostalgia noite adentro
Um choro urrado e lânguido tormento
Som amaldiçoado para humanos
Que nunca se transmutaram em sentimento
Som de choro prolongado libertando
A noite que mora dentro à noite
Solitário som fluindo vocalizando
Vociferadamente brando
Monótono ecoando pelo vazio do céu amplo
Ampliando, poetizando o sofrimento
Estendendo o grito chorado da alma
Lamento melancólico som de uivo
Prolongado, prolongando, longo, longe, longo, longe... longe... longe...
É a hora do crepúsculo.
As vontades estão alinhadas
Destinos destraçados
Sentimentos destroçados
As vontades, alinhadas.
Alinhavadas intrincadas
É a hora do crepúsculo
E hoje haverá Lua
Já sinto a maldição...
Os pelos crescem na alma e o vazio ruge... o vazio ruge...
A noite se estende por dentro de mim, há Lua lá fora...
O filtrador de sonhos tenta me proteger dos pesadelos
Mas a maldição... tem de ser cumprida... anoitece...
Anoitece... em mim, acontece... sempre assim...
- quando acordo pela manhã não me lembro de nada
um corpo humano e uma alma dilacerada,
imagens e sons e versos e pessoas com medo de mim –
Farejei teu medo de longe
Mas foi por teu cheiro que me aproximei
Já sabia que meu lobo te assustaria
Muito antes de permitir-te me ver transmutar
Ainda bem que tiveste medo
Porque sim, a minha ânsia ia te devorar
Caminhar entre os humanos é estranho.
Tão complexos – eu simples demais –
Tão desastrados em seus sentimentos
- eu, simples demais... – Eles medrosos
Tão apartados de si mesmos - eu, simples,
demais, que me encantei por eles, pela sua
complexidade absurda, eu, simples,
perdida num mundo completamente
humano, perdida, entre sentimentos
humanos, perdida, aprendendo a ser
humano... Minha natureza simples
me protege de toda a loucura que
é ser humano.
Não tenha medo de mim, pois sei dominar minha fera
Mas isto eu só permito a mim.
Aconteceu.
Desde o início.
Sempre foi mais fácil para mim me transmutar.
Minha natureza predadora também sabe ser leal
Minha natureza não consegue compreender
A metade de minha outra natureza
É difícil ser...
A metade tendo a outra metade rugindo dentro de si
Dualidade...
Meu próprio calor não permite meu próprio gelo
Me congelar por dentro
Meu lobo não permite eu me esquecer de quem sou
Selvagem, fera amável
Aconteceu
Há muito tempo
Desde o início.

Como não se aprisiona um verso também não se pode pegar a Lua ou encarcerar uma alma livre ou impedir alguém de amar. Às vezes quero vomitar a noite, mas é estando nela – ou ela em mim – que posso ser minha outra metade, a metade que me faz ser quem sou.
por Elayne Amorim
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