Não tenho filosofia. Eu tenho poesia

E que lirismo!


Manoel de Barros é poeta de um lirismo maravilhoso e incomum. Minha identificação com sua poesia – além de tudo o mais que nela há – talvez se fortaleça por tal comunicação com os elementos na natureza que o poeta possui. A forma de dizer, de descrever, de contar... é de estrema beleza e irracionalidade. Uma leitura que não pode, de forma alguma, passar despercebida aos nossos olhos. Faz parte da poética de Manoel de Barros o ato de “recolher detritos”, trazer para a poesia “tudo que a nossa civilização rejeita, pisa e mija em cima”. O poeta coleciona cacos, ruínas, acumulando-as; entra em lugares desconhecidos, cria inusitadas associações entre as coisas e os seres.
Maravilhosa leitura! Aliás, atrevo-me a fazer minhas suas palavras ao falar do fazer poético: “Em poesia, a razão não está com nada, a insensatez funciona melhor”.
Eis aí alguns trechos que li e gostei muito (muitíssimo) e compartilho com vocês, leitores, mais esse prazer de leitura...




O que é o que é?
(como nas adivinhas populares)
[...]
Camaleão que finge que é ele.
Rio de versos turvos.

É lido em borboletas como o sol.
Se obtém para o voo dos detritos.
Cobre vasta extensão de si mesmo com nada.
Minhocal de pessoas, deserto de muitos eus.

A rã me pedra. (A rã me corrompeu para pedra. Retirou meus limites de ser humano e me ampliou para coisa. A rã se tornou o sujeito pessoal da frase e me largou no chão a criar musgos para tapetes de insetos e de frades.)

Tudo o que não invento é falso.
O corpo do rio prateia
Quando a lua
Se abre

“...que a importância de uma coisa não se mede com fita métrica nem com balanças nem barômetros etc.
Que a importância de uma coisa há que ser medida pelo encantamento que a coisa produza em nós. [...] Que um osso é mais importante para o cachorro do que uma pedra de diamante. E um dente de macaco da era terciária é mais importante para os arqueólogos do que a Torre Eifel. (Veja que só um dente de macaco!)...”

 
Todas as coisas cujos valores podem ser
disputados no cuspe à distância
servem para a poesia.
[...]

As coisas que não pretendem, como
Por exemplo: pedras que cheiram
Água, homens
Que atravessam seu estado de árvore,
Se prestam para a poesia.
[...]

Tudo aquilo que nos leva a coisa nenhuma
[...]

O que é bom para o lixo é bom para a poesia

As coisas jogadas fora
têm grande importância –
como um homem jogado fora.

O que ela via não era uma garça na beira do rio. O que ela via era um rio na beira de uma garça. Ela despraticava as normas.

A lesma influi muito no meu desejo de gosmar sobre as
      palavras
Neste coito com as letras!
Na áspera secura de uma pedra a lesma esfrega-se
Na avidez do deserto que é a vida de uma pedra a lesma
      escorre...
Ela fode a pedra
Ela precisa desse deserto para viver.
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