Não tenho filosofia. Eu tenho poesia

Coisas da educação

Eu, como professora, sempre soube dos desafios da minha profissão. Nunca senti momento mais tenso que este em que vivenciamos agora, um momento certamente de transformação, mesmo que por caminhos tortuosos.
Eu, na minha realidade de professora que tão pouco entende de aspectos burocráticos, que tão ignorante ainda me vejo diante da grandeza do conhecimento, vejo o rumo que as coisas estão tomando. Metas. Objetivos. Sistemas. Quantitativos. Imposições que, a princípio, não aceitam questionamentos. Parece-me que é uma tentativa de transformar as escolas e a educação numa empresa, com chefes, encarregados, empregados... o produto em questão: pessoas. Crianças, jovens e adultos.
Se você repassar a matéria do melhor modo possível a maior quantidade possível de pessoas você cumpriu sua meta. É bem mais que isso, eu sei... as metas vão além, aliás, parece-me que as metas se perdem entre coisas que nada têm a ver com educação.
O que se vê é pessoas diplomadas aceitando imposições por bônus, o que se vê é pessoas abandonando seus ideais por dinheiro, sendo fiscais de quem, antes, eram colegas seus de trabalho. O que se vê é uma semente de desunião plantada numa classe em que já há tantas divergências, jogando-se uns contras os outros, enfraquecendo-os ainda mais.
Será que as pessoas se perguntam (ainda): qual é o verdadeiro objetivo da educação? Qual é o verdadeiro objetivo de se entrar numa sala de aula e encarar todos aqueles olhares?
Sabe por que a angústia de uma coletividade? Porque essa coletividade possui ideais que vão além de bônus, que ora lhe dão, ora lhe tiram. Porque essa coletividade enxerga um sistema falho, que deixa perder o verdadeiro objetivo de um educador. Pessoas não são produtos, mercadorias, que você fabrica e depois joga no mercado. Lidar com o ser humano é complexo demais para acharem que é assim tão fácil, tão objetivo, tão frio...
Sabe por que não dá pra concordar com este sistema? Por que eu vejo com meus próprios olhos dinheiro real sendo jogado fora em computadores novos inúteis em seus plásticos, em falta de melhores recursos para se trabalhar aulas mais proveitosas, em centavos que são o custo de merendas dos alunos, falta de professores e funcionários, aulas importantes diminuídas, preocupações com números e coisas e metas dizendo “aquele cumpriu minhas ordens, esse não cumpriu”, mas não vejo um estímulo a quem não está bem, não vejo um projeto real de “o que falta pra você melhorar?”, “como podemos ajudar você a crescer?”.
Instala-se mais uma vez a base do medo, se eu não fizer poderei ser exonerado, se eu não pressionar meus colegas serei prejudicado, faça seu serviço pois tenho que cumprir minha meta, senão perderei dinheiro... Quanto dinheiro? De que metas estamos falando? QUAL É A PRINCIPAL META DA EDUCAÇÃO?
E perdem-se as metas, os planos.
Uns se revoltam, outros cumprem sem pestanejar, aqueles que questionam passam a ser mal vistos, revoltosos, agitadores. Onde está o diálogo? Será que as pessoas que criam as normas e as metas dentro da educação ouvem professores reais, que dão aulas reais, que convivem com alunos e seus problemas reais? Será que basta colocar grades nas janelas? Será que basta contar quantas adolescentes ficam grávidas? Será que basta dizer “este colégio é melhor que aquele”, sendo que todos pertencem ao mesmo sistema que os financia? Sendo que o mesmo professor é avaliado de formas diferentes em colégios diferentes.
Pressão. Tem que cumprir, se não cumprir, há outros na fila para ocupar o seu lugar.
É assim que vejo as pessoas agirem. Não vejo a real valorização do “bom professor”. Aliás, trabalho em colégios diferentes, porque não me basta trabalhar em apenas um, o salário tem de ser complementado com inúmeras aulas. E num colégio eu “fui boa” e no outro “fui insuficiente”.
Sabem quais são os números reais? Os índices reais? Já perguntaram a algum professor? Já entraram numa sala de quarenta adolescentes agitados para ensinar qualquer matéria real? Porque a sala deve estar lotada, até onde não caber mais alunos. E fecham-se turmas, e deslocam-se professores, e avalia-se, e preenchem-se papéis. Cumpriu? Não cumpriu? Perguntaram-me se minha turma teve dúvidas e dificuldades? Perguntaram por que eu gastei seis aulas numa matéria que deveria ter gastado quatro? Perguntaram se o número de aulas está bom? Se o planejamento está bom? Está adequado à minha realidade e a de meus alunos?
E o objetivo da educação está perdido. Muitos reclamam, mas cumprem. Outros concordam e não questionam. Muitos não cumprem e só reclamam. Outros lavam as mãos. Outros se calam. Aqueles que saem às ruas são agitadores. Aqueles que querem fundamentos são os insatisfeitos. E assim, nos rotulam, como nos pedem os grandes educadores para que não rotulemos nossos alunos.
Com todo o respeito, mas não sou paga para fazer repetidas vezes a mesma coisa sem questionar dentro de uma sala fria de uma fábrica. Eu lido com pessoas e, se devo ensiná-las a pensar como a própria proposta pedagógica pede, é isso que farei. Ou mudo de profissão. Não retirei um diploma de ensino superior para obedecer sem questionar quando vejo que há algo errado. Quando vejo injustiças. Quando vejo pessoas agindo sob pressão, abandonando seus ideais, voltando-se umas contra as outras, enfraquecendo toda uma classe que deveria estar unida em torno de um único objetivo: educar.
E aí chegamos a um ponto crucial: quem realmente está comprometido com a causa e quem não está. Você colocaria seu cargo ou o próprio emprego para defender seus ideais? Para defender colegas ou amigos seus injustiçados? Aí, a parte que nos toca: o dinheiro. Bônus no final do ano. Passa-se acima de muita coisa ou de tudo por causa do bônus. A que preço nosso contracheque terá uns números a mais que, sabemos, logo ali poderão nos ser tirados numa mudança de governo e política. Somos imediatistas. Resolveu meu problema agora, que se dane o resto, que se danem aquelas idéias que eu tinha, que se dane se outros estão sendo prejudicados.
Vejo pessoas se arriscarem para tentar praticar a justiça. Vejo outros mudos, inertes, virando a cara. Vejo muitos indecisos.
Como poderemos formar opinião? Como poderemos ajudar a transformar este país, este estado? Será que sabemos realmente o que estamos fazendo? Será que nossas palavras condizem com nossos atos? Perguntas retóricas... eu sei.
Todo momento de transformação é extremamente doloroso, vemos umas coisas morrerem, para que outras possam nascer. O fato é que, nestes momentos, temos que escolher, temos que decidir quem somos de verdade.
Em momentos tristes e tensos como este em que estamos passando, deveríamos torná-lo propício para a verdadeira transformação. Que há coisas erradas, todos vemos. Todos reclamamos. Mas na hora de mudar, quem somos? Na hora de lutar de verdade, quem somos? Quando pegamos aquele diploma em nossas mãos, quando passamos num concurso, quando entramos numa sala de aula pela primeira vez... quem éramos? Em que nos tornamos? O que queremos ser realmente? O que queremos ensinar realmente?
Não se ensinam máquinas a serem humanas, a questionarem, a decidirem; não se preparam máquinas para a vida, não transformamos máquinas em pessoas. E o contrário, deve acontecer? Pode acontecer? Não vejo problemas, vejo soluções. O momento é propício ao diálogo, mesmo que acalorado. Ao resgate da nossa profissão, ao resgate dos ideais perdidos, mesmo que tão distantes pareçam estar. O momento é propício não para se esconder, mas para aparecer, falar, gritar, discutir, ver o que funciona, o que não funciona, desistir e mudar de profissão ou continuar e fazer valer a pena.
Seria utopia se não fosse possível, será utopia se tivermos medo, preguiça.
As grandes revoluções nascem dentro de nós, quando nos despertamos e depois se estendem, quando nos unimos por uma causa. Mas não nos uniremos se não nos ouvirmos, se não nos despertarmos, se não aceitarmos sair da nossa zona de conforto e aceitar nosso destino de seres humanos transformadores, que remam contra a maré. Gostamos de nos beneficiar com as conquistas dos que colocam suas caras a tapa, mas e quando chega a nossa vez?
Concluo o texto angustiado com um poema já batido, mas ao qual muitos viram a cara quando lêem, porque ele mexe com nossos brios... Postei-o como forma de mexer no interior da nossa consciência acomodada...
“Manda quem pode, obedece quem tem juízo”, e aí...
Na primeira noite eles aproximam-se e colhem uma flor do nosso jardim
e não dizemos nada.
Na segunda noite,
já não se escondem; pisam as flores, matam o nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia o mais frágil deles entra sozinho em nossa casa,
 rouba-nos a lua e, conhecendo o nosso medo, arranca-nos a voz da garganta.
 E porque não dissemos nada, já não podemos dizer nada.
Elayne Amorim
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