Não tenho filosofia. Eu tenho poesia

De repente...


De repente acordei outra pessoa. Levantei-me aquela manhã e fui ao banheiro, como de
costume. Olhei-me no espelho e me vi outra. Achei bonitos meus cabelos desarrumados, cacheados, bruscamente mesclados de vermelho desbotado. Achei que minha cara de sono estava bem para aquela manhã, eu dormira até mais tarde que de costume. Os lábios rosados, meio ressecados, minha pele tinha um brilho leve, era um brilho de vida.


De repente, pensei em coisas que se passaram. Pensei em pessoas. Pensei nas situações em que nos colocaram, situações em que me coloquei. Os compromissos que faltei. Os lugares que fui por pura obrigação. As festas que eu queria ter ido, as bandas que deixei de assistir, as pessoas com que deixei de conversar, aquelas a quem confundi sem querer, aquelas que me confundiram sem maldade. Eu pensei em quem quis me destruir. Eu pensei em quem quis me ajudar.

De repente, percebi, meus sentimentos mudaram. Meus pensamentos mudaram. Minhas palavras mudaram. Meus poemas mudaram. As minhas leituras. A minha forma de falar do amor, de falar da raiva, de falar do perdão, de falar de Deus. Mudaram.

De repente achei que eu me merecia mais. Que eu merecia aquele corpo, aqueles cabelos, aquelas sobrancelhas, aqueles lábios, aquele brilho vital. Achei que eu merecia aqueles olhos felizes ao acordar de manhã. Aqueles olhos possuem um poder imenso, que eu não sabia.

De repente achei que merecia meus cachorros, meus cavalos, minhas árvores, meu céu, meu ar, minha brisa que passa leve pela manhã, meu sol tímido de primavera. Minhas estrelas incandescentes. Minha lua. Porque nada disso é realmente meu e mesmo assim eu posso ter. É um ter sem posse, é um ter incondicional, é um ter que não tem nada a ver com egoísmo ou vaidade.

De repente eu vi que não temos as pessoas dessa forma pura e simples em nossa vida.

De repente eu me senti feliz. Devolvi o sorriso à que me sorria no espelho.
por Elayne Amorim
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