Não tenho filosofia. Eu tenho poesia

A arte de aprender a olhar



“Houve um tempo em que minha janela se abria sobre uma cidade que parecia ser feita de giz. Perto da janela havia um pequeno jardim quase seco.”


            Assim começa a bela crônica de Cecília Meireles “A arte de ser feliz”. É engraçado, mas de vez em quando a releio, ou então a levo para ler com alguma turma minha.
Ela fala das coisas mais “bobas”, mais simples, cotidianas que a pesada rotina de correria não nos permite ver ao passar dos dias. Nesta época de seca, “na roça”, tudo fica meio cinzento, como se a paisagem fosse mesmo desenhada com giz e a poeira se soltasse e viesse invadir nossas janelas. A natureza quase morta, as amendoeiras com suas últimas folhas avermelhadas a se soltarem com os ventos de agosto.
No quintal de terra batida e árida juntam-se inúmeros canarinhos amarelos e outros pássaros pequenos a comerem o fubá que esparramamos. Os gatos, às vezes, tentam dar-lhes botes, mas seus movimentos despertam os cachorros e acaba cada qual indo para um lado enquanto os pássaros, em revoada, escondem-se nas árvores. Isso se repete inúmeras vezes durante o dia. Os cavalos catando os últimos brotinhos de grama, que já se encontra quase completamente seca. O céu, tão azul, tão azul, que atrai meus olhos por longos minutos...
Às vezes consigo retirar um tempo e fico, não a observar nem a analisar, fico a contemplar a natureza. Como que ainda, de suas rochas ou de sua terra seca, a água brota e a mantém viva por longas semanas de aridez. Os troncos das árvores nus a soltarem brotos minúsculos, verdinhos que, por vezes, são assaltados por uma saúva que resolve aparecer ou uma boca equina querendo um petisco viçoso.
Tendo que economizar água, rego as plantas em volta da casa lembrando-me do homem da crônica, em sua “aspersão ritual” para que elas resistam ao período de estiagem.
E assim “tudo está certo, no seu lugar, cumprindo o seu destino. E eu me sinto completamente feliz.” Como ela pôde traduzir exatamente o que sinto quando olho para tudo isso; quando, nas mínimas ações, reconheço-me como parte daquele quadro que ela pintou tão bem em suas palavras, como se eu estivesse lá, participando das suas felicidades certas... Essas felicidades que, por mais que tentemos traduzir com nossas palavras, só podem ser sentidas, só podem ser experimentadas quando paramos um pouco para contemplar a vida, o mundo, a natureza. Uns dizem mesmo que elas não existem; outros, olham-me como se eu fosse louca, que essas coisas são imaginadas; porém, “outros, finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim.”
Com licença, Cecília, por usar suas palavras, mas é que você estava certa. Ser feliz é uma arte.

por Elayne Amorim

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