Não tenho filosofia. Eu tenho poesia

Um concerto verbal - PRINCIPIO

Deslizo pela página de papel, minhas mãos ágeis, porém cansadas, ainda insistem em dedilhar as letras sobre as linhas, num concerto desacertado de ideias que parecem minhas mas que não. À pausa de uma palavra ao pulo da outra ganho dimensão imensurável de vivências. Eu já vivi de tudo e minha imaginação não sabe mais o que seja real ou não. A poesia é uma música secreta transformada em verso, ela sai de algum canto da minha alma e se transforma em serenata. Dedilho o papel, a tinta resvala, escrevo com cor de sangue e poucos sabem da minha latência. Até já tentei me embrenhar por caminhos amenos e dedilhar menos as dores sobre a partitura branca; porém, o que é ameno transforma-se em menos e eu sempre quero mais. Eu quero acordes de palavras que acordem todos os demônios e anjos que se atracam em mim. Quero uma reverberação constante de tempos remotos e tão antigos quantos futuros, quero que tudo num tropel de sons e significados possam extrair de mim a essência que eu escondo até de mim. Arrancar do peito! Abrir à ferro e afiada espada! Cortar num átimo com o verbo principal! Arrancar! Arrancar! Até que último grau de loucura seja alcançado e aí sim eu me atirarei toda nua e disforme sobre o tecido verbal que se esfacelará em tuas mãos de ouvidos e olhares espantados...

por Elayne Amorim
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