Não tenho filosofia. Eu tenho poesia

Amar.


Pelo dia dos namorados, mais uma vez, venho falar de amor. Aliás, trago este belo poema do poeta Carlos Drummond de Andrade - Amar. Falar de amor é sempre muito bom. Fala-se de tanta coisa e tanta coisa ruim! E essas mesmas coisas ruins acontecem em sua maioria - senão todas - pela falta de amor. A ocasião nos remete ao amor romântico, porém, o amor é muito mais e muito maior que simplesmente romantismo; senti-lo é vital, conduzir a vida pelo caminho do amor certamente é construir um caminho seguro de felicidade. Que sejamos um pouco piegas, que nos encantemos com a luz do luar, que nos demos ao luxo de ser utópicos de vez enquando... A busca incessante deve ser a busca pelo amor. Guardar mágoa, colecionar medos, impregnar-se de insegurança: nada disso vale a pena. Que busquemos um amor sem medida, pelas coisas pérfidas ou nulas, mas que sejamos incansáveis nessa procura, pois é a falta dele que causa sofrimentos, e não o contrário.

Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer, amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?
Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?
Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o áspero,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho,
e uma ave de rapina.
Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor à procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.
Amar a nossa falta mesma de amor,
e na secura nossa, amar a água implícita,
e o beijo tácito, e a sede infinita.
(Carlos Drummond de Andrade)
por Elayne Amorim 
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