Não tenho filosofia. Eu tenho poesia

Traduzindo um pouco de mim...


Egocêntrica?
Às vezes é bom se dar ao luxo de ser egocêntrico: olhar-se é uma forma de olhar o mundo.




Lembra aquela garrafa de vinho tinto que ficou pelo meio?
O vermelho de seu líquido está na taça agora pelo meio.
Tem gosto de verso, vinho e beijo.       
Tem sabor de saudade.










Dentre os muitos defeitos que tenho, tenho um que é terrível: pensar demais. É meio que um prazer masoquista que possuo. Penso nas escolhas. Penso nas conseqüências. Penso nas pessoas. Penso nos versos. Penso no meu trabalho. Penso nos resultados. Penso nos animais. Penso na humanidade. Penso até no que aconteceria se a Terra ficasse superlotada e faltasse água para as pessoas beberem. Mas, tem uma coisa – ou uma pessoa, um ser, não sei – que quando penso, vejo-me completamente sem pensamento.

Sabe o que mais me cansa? O cansaço das pessoas. A vida é pra ser vivida. Cansaço significa que seu corpo trabalhou muito. Cansaço é bom demais, menos o cansaço de viver.

Tem coisas que a gente nunca esquece, nem com os anos. Lembro-me de mim, pequenina, tímida e acuada ainda, no quintal imenso da casa da minha avó, lá, escondida entre as árvores. Peguei um fósforo escondido – retirei da gaveta. Juntei uns gravetos, uns bambus velhos e secos, uns pedaços de papel bem ressequidos e velhos. Montei uma fogueira. O momento de acendê-la foi como fazer um ritual: olhei-a bem, tudo pronto e montado numa pirâmide irregular; mirei, acendi o palito e a chama pequena tocou o papel de jornal amarelado. As labaredas subiram por entre os galhos e as varetas de bambus, amarelas, lindas, impetuosas, vorazes e quentes, e eu sorria, eu sorria demais, com os olhos hipnotizados para a cena, segurando a caixa pequenina de fósforos na mão sem saber que a segurava. Eu sorria, acho que meus olhos triplicaram o tamanho do deslumbramento diante daquele fogo todo que era só uma pequena fogueira, menor que eu, criança. Foi a primeira grande travessura da minha vida. Foi uma das primeiras vezes em que eu entrava em contato com minha alma pura.
Eu gosto de amar. Não gosto de perder. Não gosto de magoar. Não gosto de desistir. Não gosto de desgostar. Não gosto de separar. Não gosto de esquecer. Não gosto de escolher. Não gosto de não. Eu gosto só de amar.

Pois é, às vezes eu sou rock pauleira.
No meio da noite, no meio do nada,
Me dá um estalo e cismo de mandar recado.
A operadora de celular agradeceria se eu dormisse
Como todo mundo faz.
Eu quero que a operadora se exploda.
Ultimamente, se eu visitasse uma loja de fogos
O perigo seria iminente.

Eu sempre preferi os animais a bonecas. Gostava de olhar quadros imaginando vida lá dentro. Uma árvore era um mundo novo. Melodias, só as que trouxessem prazer aos meus ouvidos. Roupas, só as que coubessem em mim, quando passei a usar muito preto minhas amigas me tacharam de diferente. Eu não ligava muito de ser chamada de esquisita, mas o mundo parecia se importar. Quando eu me importei, aí, passei uma fase infeliz. Quando olho pra mim no passado eu falo: menina, você era tão bobinha... Hoje, de repente, reparei na minha roupa e na roupa das outras: mulher, você é mesmo diferente... Muita coisa mudou, mas a essência ficou. Ainda bem, deu tempo de achar-me antes de perder-me entre os estampados da moda dos outros...

Eu não sabia quem seria, mas sabia que queria ser. Nunca me preocupara muito com predicativos... Alguém famosa talvez, grande, notada, notória, artista, astronauta, que descobrisse a linguagem secreta dos animais e revelasse ao mundo incrédulo tamanha descoberta. Eu queria ser. De repente, a menina se tornou mulher e a mulher, de repente, percebeu que era melhor voltar a ser aquela menina. Porque sonhar é bom. Mulheres muito cheias de compromissos costumam deixar de sonhar, costumam tapar seus rostos com quilos e quilos de maquiagem e a menina não queria tapar seu sorriso verdadeiro. Ela queria ser. Eu queria ser.
Eu sou.
Porra, sou ultrarromântica.
E ultrarromantismo não tem nada a ver com príncipe encantado.

Eu sinto com a agonia dos ventos. Quando uma guitarra chora minha alma vibra por dentro. Eu espero até o último centésimo de segundo da existência de uma esperança. Bebo até acabar a bebida e fico até a última música de uma festa. Às vezes subo numa mesa ou grito ou danço sem saber criando meu ritmo, aí as pessoas me chamam de louca. Não consigo amar se não for aos extremos da dor e do prazer. Eu gosto das luzes da noite, mas amo o sol e as ondas revoltas da praia desafiando minha sanidade. Se não for pra perder as estribeiras não dá pra levantar da cama e sair pra mais um dia.

Eu sou daquele tipo que prefere falar que gosta quando gosta de alguém. Por que teria de ser diferente? Essa coisa da sociedade de “não faça isso, faça aquilo” há muito me enjoou. Se eu gosto, eu gosto e pronto e vou falar. Não falamos tão facilmente que odiamos quando odiamos? Então por que não falarmos tão facilmente que gostamos – ou amamos – se gostamos – ou amamos?

Sentir-se estranho é uma forma de se sentir feliz.

O vinho está pelo fim. Um dedo até o fundo da taça. O líquido sanguinário me lembra a ti. Tem gosto de conversas nossas, tem gosto de sorrisos teus, tem um gosto imenso de saudade. Saudade. Quando olho pra taça avermelhada eu sei bem o que seja saudade. Um sentimento poderia caber ali dentro daquele resto de vinho se aquele resto de vinho preenchesse os sete mares do mundo desaguando em oceanos em dez planetas terras esparramados pelo universo. Talvez minha saudade de ti tenha mais ou menos essa medida. Talvez seja um pouco maior.
por Elayne Amorim
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