Não tenho filosofia. Eu tenho poesia

O que sou realmente...?

Uma vez aberta a porta do ser, não há mais volta.
Nunca há volta, disse-me um personagem imortal uma vez...
Quando resolvi olhar para dentro de mim, para além daquelas planícies calmas da minha alma, vi que aquele cavalo solto era selvagem demais pra eu tentar domar. Eu me apegava a verdades que eu sabia, de alguma forma, que já não eram mais tão verdade assim... Aí, entrei em desespero.
Vi também o quanto era (e sou) covarde, isso aumentou ainda mais a minha dor. Saber-se, não conter-se e não conseguir se revelar. Ter medo dos outros. Ter vergonha dos outros. Ter medo também de machucar os outros. Os outros, sempre, os outros. O inferno são os outros. E você mesmo.
Mas não havia mais volta. Não há. Não existe.
Soube-me covarde no instante em que o cavalo avançou sobre mim, não aquele animal frágil e dócil, mas impetuoso e audaz, um monstro de crinas longas, uma fera indomável, todos os dias tenho que encará-lo no espelho, tenho que encará-lo nos meus sonhos, cada vez que fico sozinha comigo mesma.
Vivo numa solidão tão imensa, tão intensa, tão calada... que pareço enlouquecer a cada minuto. Se o mundo não está bem... O que tenho eu com isso? Também não estou. Vejo olhos negros fitando-me com interrogações infinitas e eu, sem respostas, fujo, fujo por dentro e por fora de mim, mas ele me persegue, seu galope furioso está a me alcançar.

Minhas mãos trêmulas tropeçam nas palavras.
As lágrimas não conseguem vir aos olhos.
O cárcere que sou de mim mesma parece inquebrantável.
 Às vezes nossos caminhos se dividem em dois. Não como fugir para uma terceira saída, ou você escolhe a um ou a outro.
O futuro não existe ainda e, inevitavelmente, um desses dois futuros não existirá. Só que você não sabe ainda em qual deles você vai estar.
Um desses caminhos é previsível, mas já não te atrai tanto. É previsível. O outro, incerto e convidativo. E, apesar de um previsível e outro incerto, você não conhece o futuro de nenhum dos dois.
Você explora todas as possibilidades, mas nenhuma delas existe de fato. A que existe, você pode ter se esquecido de lembrar.
Em momentos assim, descobrimos um pouco do que somos...
O inconsequente, que escolhe sem olhar.
O aventureiro, que sempre escolhe o imprevisível.
O covarde, que sempre escolhe o previsível.
Eu queria mesmo ser aquele que fizesse a escolha certa, mas a escolha certa é certa apenas naquele momento, é certa, porque só eu posso escolher, é certa, porque é a escolha que me fará crescer, que trará lágrimas e sorrisos na medida certa.

Eu gosto de ler frases bonitas em momentos ruins.
Gosto de poder fugir um pouco daquilo que me perturba.
Não tenho nada contra livros de autoajuda, nem a favor;
Prefiro os poemas.
Vasculho textos e autores em busca da palavra que vai me libertar,
Só encontro perguntas ou mais solidão.
quem sabe um dia eu possa me aproximar de mim
bem perto, tão perto, que eu possa (quase) tocar-me
fazer as pazes com a minha alma, olhar o mundo de outra forma
olhar as pessoas de outra forma, me olhar nos olhos
e não ter vergonha, nem medo, de ser o que sou
sem culpa, sem falsa modéstia, sem hipocrisia
só eu, falha, num mundo falho
mas perfeitos...
Elayne Amorim
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