Não tenho filosofia. Eu tenho poesia

Hoje é dia da poesia, fala o eu lírico


Hoje é dia da poesia. Não, não é feriado. Não é dia santo. Ninguém vai parar o trânsito para proclamar este dia. Ninguém vai se vestir de preto ou de branco ou de vermelho por causa desta data. A realidade segue. Outros devem murmurar o que tenho eu com isso...? O eu lírico, esse estranho ser inefável que ninguém nunca vê, timidamente responde de seu canto... nada... só pra você saber... Hoje, é dia da poesia.
Dia comum, de verão, plena quarta-feira e já passou por aqui uma chuva impetuosa e rápida. A chuva alagou meu coração de palavras. Já fora logo cedo. Eu não reparei que já amanhecia chovendo em mim e a brotação esperada crescia. Deparei-me comigo sentada no quintal de uma casa onde morei há alguns anos, devia ter sete ou oito anos... Aquela coisa vinha e eu enxergava tosco – eu acho que nem era tosco porque também era belo. Para os outros era tosco. – Aquela coisa vinha e eu derramava sobre a folha em branco os primeiros versos... Ele nascia. Eu nascia. E aquela coisinha criança tímida e medrosa, que devia ter uns sete ou oito anos, me abafava dentro dela. Chamam-me de eu lírico, mas na verdade, eu não possuo nome ou então possuo vários.
Essa voz que vem de dentro de um-não-sei-onde que habita a alma humana e os corações controversos. Na verdade, receio que seja ilimitado, pois de tudo que falo não tem fim. Pois, além de habitar aquela criança antiga que hoje vem a ser uma mulher, habito outros mais... muito mais... homens, mulheres e crianças, a quem deixo o legado do olhar tosco, do comportamento excessivo, do coração sangrando. Não. Eu não causo dor. O que causo seja talvez um comportamento compulsivo obsessivo por procurar pérolas nos nadas.
Essa pérola é o que se chama de poesia. Trabalha-se, sua-se, gasta-se, desfaz-se, remonta-se e, acima de tudo, sente-se. De repente, como uma escultura feita de atmosfera líquida, ganha forma, ganha verso, ganha estrofe, transforma-se em poesia.
Aquela coisa vista-sentida-realizada dentro do mundo do poeta escorre para a realidade alheia chocando-se a outros mundos... não era ela, a criança; não era ela, a mulher; não ele, o homem: era eu, psicografada minha voz em forma de tinta e palavra sobre o sacrifício do papel. Na verdade, habito em todos, porém alguns tentam a abafar a minha voz. Porque poesia é coisa humana, uma forma de ver, uma forma de ouvir, uma forma de sentir; uma forma em múltiplas formas, um eu em muitos eus.
As pessoas têm medo de mim – voz que fala no poema – porque minha voz encanta, porque ela desafia a razão, porque ela está por detrás daquilo que não se pode ver com olhos comuns, nem tocar com mãos pesadas...
Hoje é dia da poesia. Olha o céu por mais de trinta segundos. Abrace o outro mais de dois minutos. Tente não compreender nada por mais de três horas. Não pense; agora é tudo o que existe. Eu – poesia – estou bem aí.
por Elayne Amorim
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