Não tenho filosofia. Eu tenho poesia

Prece



Ah, que minha sensibilidade seja abalada, mas não retorcida. Que meu coração não se endureça perante a ilógica maldade que parece nunca ter fim neste mundo. Que eu seja persistente, que lute pelos meus ideais, mas que não me torne perversa. Que eu possa acreditar naquilo que os olhos comuns não conseguem ver. Que meu coração possa sentir: isso sempre. Sentir amor. Sentir compaixão. Sentir perdão. Que a rotina não me torne frívola, que a ignorância alheia não alimente minha própria ignorância. Que meu espírito livre não se aprisione ao medo, ao cansaço, ao conforto. Que meus sonhos quebrados tornem-se mosaicos de outros sonhos. Que eu compreenda que os outros também sentem e têm todo direito de pensarem diferente de mim. Que eu acredite que tudo muda. Que o tempo – palavra chave – me molde conforme as florestas e os mares. Que eu me permita me livrar das culpas. Que eu me permita aprender, mesmo sentindo dor. Não é sempre que a poesia bate: ela também possui seus momentos de silêncio. Que eu possa enxergar a bondade mesmo enquanto a destruição e o mal encenem mais ao palco. Eu não sei o que é ser humano, mas que todos os dias possua alguma epifania. Que eu me dê ao direito de descansar. De não querer. De querer. De não poder. De poder. Ah, que eu não deixe de acreditar no amor porque em tudo o que toco ele deve estar presente ou nada do que fizer valerá a pena. Que eu não endureça. Que eu não apodreça. Que eu não me torne ríspida, apesar de. Que eu saiba distinguir o fútil do precioso. Que meus gestos não sejam interesseiros. Que minha sensibilidade traga o melhor da minha essência. Que eu não esqueça quem sou. Que eu não me esqueça de agradecer. Que eu não me cale diante de uma injustiça. Que eu não seja implacável com a dor alheia. Que eu não julgue. Que eu não finja que está tudo bem quando não estiver. Que eu não guarde ressentimentos. Que eu vislumbre sempre o agora como um presente. Que eu compreenda que tudo na vida possui ciclos, como a própria natureza tenta nos ensinar. Que minha parte animal não me deixe de fazer olhar pelos outros animais. Que minha parte humana não me deixe ser medíocre com os outros seres humanos.




Que meu espírito livre seja sempre livre... que eu não me aprisione na dureza que este mundo parece exigir de nós. Não pertencemos a este mundo – apenas estamos; quem sabe, para sermos melhores, para termos possibilidades... Nada/ninguém nos pertence além de nossa própria essência que apenas passa por mais esta experiência...

por Elayne Amorim


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